Agentes Muito Especiais é aquele tipo de comédia nacional que, à primeira vista, parece apenas mais um filme de humor escrachado, mas que aos poucos revela camadas mais interessantes especialmente quando lembramos que a ideia original veio de Paulo Gustavo, um artista que sempre soube usar o riso como ferramenta de afeto, crítica e humanidade.
Dirigido e protagonizado por Marcus Majella, o longa acompanha Jeff e Johnny, dois policiais que claramente não estão prontos para a grandiosidade da missão que recebem. Johnny (Pedroca Monteiro) é um policial municipal empurrado para o COIP mais por pressão familiar do que por vocação. Jeff, por outro lado, já é policial civil e vê na nova unidade uma chance real de crescimento profissional, reconhecimento e ascensão na carreira.
O roteiro brinca com essa disparidade de motivações para criar situações cômicas eficientes, mas é quando a dupla precisa se infiltrar na quadrilha liderada por Onça (Dira Paes) que o filme encontra seu melhor ritmo. Dira Paes entrega uma personagem forte, carismática e dominante, funcionando quase como um contraponto sério dentro de um universo propositalmente exagerado. Sua presença eleva o nível das cenas e evita que o conflito principal se torne raso demais.
No campo da comédia, Agentes Muito Especiais acerta ao abraçar o absurdo sem pedir desculpas. As situações são exageradas, os personagens beiram a caricatura e o humor é direto, popular e acessível, algo que dialoga muito bem com o DNA criativo de Paulo Gustavo. Ainda assim, o filme surpreende ao inserir momentos de emoção e, principalmente, ao abordar a homossexualidade dentro da polícia, trazendo críticas sociais relevantes sobre preconceito, masculinidade tóxica e a dificuldade de existir plenamente em um ambiente historicamente conservador.
Nem tudo funciona perfeitamente. Em alguns momentos, o roteiro se apoia demais em convenções já conhecidas da comédia brasileira, e certas piadas poderiam ser mais bem desenvolvidas. Ainda assim, o saldo é positivo. O filme entende sua proposta, respeita seu público e consegue equilibrar humor, emoção e crítica sem perder a leveza.
No fim, Agentes Muito Especiais não tenta reinventar o gênero, mas cumpre bem seu papel: divertir, provocar reflexões pontuais e, acima de tudo, manter viva a sensibilidade e o olhar humano que sempre marcaram as ideias de Paulo Gustavo.



